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desabafo I

Acho que nunca vou conseguir perceber e nunca, espero eu, conseguirei ser igual. São atitudes que não fazem sentido dentro do meu estilo de vida. O ser humano é um ser para os outros; então, como se admite que alguns de nós não pensem nos outros? Mais, como se admite que as pessoas, algumas, não tenham consideração por aqueles que lhe são mais próximos? Não entendo. E, como não entendo e me preocupo acabo por ficar mal, naturalmente.
Talvez algumas pessoas que me chamam a atenção tenham razões para isso. Porque me curvo sempre perante os outros, porque cedo, porque sou submissa? Quando me começam com estas conversas sinto-me sempre humilhada, pequenina debaixo das interrogações e dos dedos apontados dos outros. O que eu sinto é que às vezes sou obrigada a ceder porque há um outro alguém que precisa de mim e porque me curvo. É verdade que também me revolta o facto de me aperceber que sou quase sempre eu a ceder e a dar a outra face. Também sou sempre eu a ficar mal e em tudo. Em tudo sim, porque percebi que apesar das minhas preocupações, boa vontade e treta e tal, apesar de tentar dar o meu melhor, quando não existe , pela via natural, uma ovelha negra na família, é necessário de qualquer forma arranjar uma. Fácil. Há o motivo - que no fundo não existe - logo está encontrada a ovelha.
Portanto, faça bem ou faça mal, como sou ovelha negra, nunca conseguirei subir de escalão. Uma vez ovelha, ovelha sempre. Excepto numa situação em que posso mudar e passar de ovelha negra a um ser nulo. Um zero à esquerda. Nada. Maravilha.
A única situação em que, às vezes, me sinto ser algo mais é quando tudo acontece da maneira que os outros querem. Mas a ilusão morre rapidamente. Eles ficam em alta, eu nada.
Terei algo que me conforte hoje? Não muito. Estou cansada e esta doeu. Descombino tudo com o namorado e os amigos e amigas, "Desculpem, afinal não é possível, alguém se esqueceu que eu existo...". Todos vão fazer o que querem, sorrir, dançar, divertir-se. Eu estou a caminho de casa, vou ter com a minha mãe e ficar com ela esta noite. Sim, resta-me a consolação de que ela não está sozinha, estamos juntas, de que ela não tem culpa de nada e precisa e merece a minha companhia. Serve-me de consolação saber que me tem a mim, embora eu muitas vezes sinta (pode não ser totalmente verdade) que nem  a ela eu tenho ao meu lado.

Comentários

Este comentário foi removido pelo autor.
por vezes a vida não é justa e as pizaduras com que ficamos fazem com que nos tornemos mais rijos e frios. a seguir, normalmente, vem um momento que expõem o nosso lado mais fraco e tornamo-nos (outra vez) criaturas desprotegidas e vulneraveis, e andamos uma vida inteira nesta lenga lenga.
No Carnaval a minha tia encontrou uma cadela na rua e levou-a para a quinta. deu-lhe banho e alimentou-a. na semana a seguir, cortou-lhe o pelo porque a cadela ainda era novinha e já tinha o pelo grisalho por falta de comida e bebida. passaram-se 2 meses e a minha tia cortou-lhe outra vez o pelo. Em Julho, quando fui a quinta passar as ferias, a cadela tinha o pelo castanho, lisinho e sedoso!
o que e que eu quero dizer com isto... todos tem a sua quota parte de beleza e carisma. resta aos outros saber captar a essencia de cada um.
o meu conselho: corta essa lã negra com que os outros te cobrem e mostra o brilho da lã branca que te pertençe! ;)
Os amigos verdadeiros não se devem importar de gostar da ovelha mais negra que possam ver. porque pode muito bem ser a ovelha mais pura que alguma vez virão a sentir!

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