Avançar para o conteúdo principal

Cartas para ti V

21.08.2014

É vergonhoso o número de vezes que tenho pensado em ti. Muito. Não é vergonhoso, mas sim curioso e faz-me pensar. Na verdade, não me surpreende muito. Eu já me conheço e sei que gostei de ti. É tão simples quanto isso, gostei de ti. Talvez não logo, porque na verdade não me lembro de tudo o que falei contigo naquela noite, nem tão pouco cheguei à quele momento, sabes? Aquele momento em que dei por mim fora do tasco a olhar para ti, a aproximar-me e a beijar-te. Sinceramente, não sei. Nem me lembrava do teu nome... só me lembrei depois. Não posso dizer que gostei logo de ti, mas obviamente, em algum momento despertaste interesse em mim - um olhar, um comentário que fizeste, um toque. Algo em ti me chamou à atenção e me atraiu e por essa razão não quis dormir nesse dia, quis começar o dia a teu lado, a conversar até não poder ficar mais tempo.
Sei perfeitamente que o que me conquistou foi precisamente o dia seguinte, o pós-bebedeira, a realidade da luz do dia, nós os dois, cansados da noite anterior, mas com uma vontade maior do que tudo de continuarmos juntos e saber mais um do outro. Foi depois do efeito do vinho passar, quando consegui ver melhor e com mais clareza, que te adorei. E senti logo que seria assim e que algo em ti era especial - não me enganei.
Não foi vislumbre ou fantasia como lhe chamaste  abrincar. Se tivesse sido isso, a chegada da realizada do dia seguinte, da luz do dia, teria sido desastrosa e a minha vontade de continuar a partilhar tudo contigo teria terminado. Talvez nem tivesse começado.
A verdade é que eu não conheço meios termos. Minto, conheço, mas não sei muito bem viver no meio termo. Nunca soube muito bem gostar pela metade e soube logo que gostava de ti por inteiro, apesar de não to dizer. Às vezes, tenho algum medo de mim, por me entregar sempre sem olhar a meios, sem limites. Eu quero beber as pessoas que me atraem, quero fundir-me com elas, quero aprender com elas e poder observá-las e admirá-las até me cansar. Quero tudo. Quando gosto quero conversas prolongadas, nem que seja só ouvir, quero abraços apertados de tirar a respiração, olhares que se cruzam, beijos intensos, noites longas. Quando gosto quero dar tudo, porque não existe medo para mim quando gosto. Ou se existe, só aparece depois. Depois, quando por vezes, deixo de sentir, deixo de amar e dou demasiados ouvidos à razão.

É vergonhoso o número de vezes que pensei em ti. O número de vezes que atravessaste a minha mente enquanto conversava com outras pessoas, que me invadiste enquanto olhava o mar, que imaginei o que poderíamos fazer se estivesses aqui, que recordei as nossas conversas, que me arrepiei com lembranças nossas, dos nossos momentos, do teu toque, do teu beijo, do teu olhar, da tua voz.
Não sei dizer quantas vezes tudo isso aconteceu, mas sei que foram muitas. Foram muitas e tu hás-de saber isso um dia, se ainda não o sabes. Mas dizer que pensei em ti demasiadas vezes não é vergonha nenhuma, é uma forma de gratidão, uma forma de mostrar o quanto gostei de ti e que a tua aparição na minha vida só me trouxe mais motivos para sorrir.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As desculpas pedem-se, os erros é que se evitam

As desculpas não se pedem, evitam-se. Passei a minha vida inteira a ouvir isto, para chegar aos 25 anos e perceber que é a maior estupidez de sempre.  Essa é a uma frase que as pessoas usam quando colocam expectativas demasiado elevadas para as outras. As desculpas pedem-se sim, as desculpas são para se pedir, é das primeiras coisas que ensinamos às crianças: pedir desculpa quando erram ou fazem uma asneira. Porque é que a partir de determinada altura já não queremos que as pessoas nos peçam desculpa? As desculpas pedem-se, o que se evita são os erros e ainda assim sabemos que ao longo da nossa vida iremos errar várias vezes.  Novamente, quem diz o contrário são as pessoas que criam expectativas excessivamente altas para os outros, impossíveis de cumprir. E ainda que digamos que devemos evitar os erros, não por aí umas quantas linhas filosóficas ou o que lhe quiserem chamar que defendem que é a partir dos erros que aprendemos? Que é com os que crescemos? Que os erros são parte essencial d…

Quantos queres?

Diz-me lá, quantos queres?
Nesta brincadeira de crianças
que está prestes a tornar-se séria, diz-me lá
Quantos queres?
Dias de sol, quantos queres?
Abraços de quem amas, quantos queres?
Uma festa no cabelo, quantos queres?
Noites de amor intenso e sem fim, quantos queres?
Diz-me lá, sinto que queres algo mais.
Dias de liberdade, quantos queres?
Momentos em que podes ser tu próprio, quantos queres?
Passeios na rua julgamentos dos outros, quantos queres?
Diz-me lá o quanto queres ser livre e seres tu, sem que ninguém te critique ou coloque em causa quem és. Diz-me o quanto queres gritar ao mundo de quem gostas, sem que ninguém te olhe de lado. Diz-me o quantos olhares de lado já sentiste, quantas pessoas a desaprovar um abraço, umas mãos dadas, um beijo que tenhas dado. Diz-me quantas vezes já te sentiste preso/a dentro do teu próprio corpo, quantas vezes escondeste o que realmente pensavas e  sentias para te enquadrares na sociedade, no teu grupo, na tua família, para fazeres parte do quadrado que…

Sobre a arte de estar sempre a aprender

O senhor V. e a dona P. têm sido uma verdadeira descoberta para mim. Nunca imaginei que fosse gostar tanto do que faço atualmente, que me fosse sentir tão bem, que fosse simpatizar tanto com os meus patrões, e lhes ter carinho, aquele carinho que criamos quase automaticamente por pessoas que nos fazem lembrar e que poderiam ser nossos pais. O senhor V. disse-me num dos primeiros dias que trabalhei na ourivesaria: "O saber não ocupa lugar" e é tão verdade. Tenho aprendido tanto com ele. Por vezes, chama-me de "Dra.", sabendo que eu não gosto nada disso, e diz com toda a certeza que eu sei fazer tudo o que ele faz, diga-se: mudar pilhas aos relógios, mudar braceletes, e arranjar umas quantas outras coisas. Porque fui para a universidade e portanto saberei tudo isso, porque sou "Dra.". Mas não sei e não sou Dra. Na faculdade não aprendi metade das coisas que tenho aprendido nas restantes áreas da minha vida, nem a faculdade de me ensinou, nem poderia ensinar …