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Para os meus miúdos preferidos V

Acho que às vezes consigo perceber-vos, se calhar demasiado bem.
Às vezes, acho que essa será sempre uma dificuldade para mim, enquanto profissional: consigo ser demasiado empática, se calhar já estive no vosso lugar, se calhar já me senti muitas vezes como vocês se sentiram, ou de forma similar.
Naquele dia, foi como magia, senti que tinha percebido. Percebi porque fogem. Percebi porque fogem sem razão nenhuma aparente, para passarem uma noite de frio, sem dormir e sem comer. Percebo porque se querem perder. Porque enquanto se estão a encontrar, a realidade ataca-vos de uma forma cruel e vocês não têm forças para lutar, para persistirem, para mostrarem àqueles que não acreditam em vocês, que vocês são capazes. 
Naquele dia também eu me sentia assim, não aguentava a realidade e só queria fugir, gritar ou explodir. Também queria gritar, mas nem sequer conseguia. A realidade veio contra mim com uma brutalidade descomunal e eu pensei que talvez o mesmo acontecesse com vocês. Porque às vezes parece-me que se estão a endireitar, parece-me que estão conseguir erguer-se nos vossos pés, orientarem-se, entrarem no vosso caminho e, de repente... há algo que é dito, que é feito, que acontece e, de um momento para o outro, vocês deixam que isso controle completamente o vosso comportamento, as vossas emoções, os vossos pensamentos. Perdem, porque perdem o controlo e, porque neste sistema são o elo mais fraco, na maioria das situações. Ou porque vos vêem como vítimas ou porque vos vêem como delinquentes. Terão sempre algo a provar a quem vos rodeia, porque o mais pequeno erro, eles estão-vos em cima. Nem sempre é assim, mas com alguns de vocês é assim mesmo. Já têm o vosso percurso de falhas, de asneiras... cada erro é só mais a acrescentar à lista, na verdade só estão à espera que vocês erram novamente (e novamente).
E, às vezes, eu também me sinto assim. Sinto que mesmo que faça o bem e que tente de facto fazer as coisas bem, à primeira falha, tudo o que fiz anteriormente já não significa nada, volto à estaca zero, não passo de uma delinquentezinha com a mania, não passo de uma falhada. Mas tenho a dizer-vos que não somos uns delinquetezinhos, não somos uns falhados e não interessa o que possam dizer. Temos de continuar a tentar o nosso melhor e a fazê-lo porque nos sentimos bem com isso, porque haverá sempre alguém, em algum momento que nos irá reconhecer, que irá perceber que temos algo de bom em nós. Eu não duvido de vocês, vocês têm muita coisa boa. Podem falhar, podem errar... mas acredito que nos vosso interior há muita coisa boa para mostrar, às vezes, é só preciso ajudar-vos a mostrá-lo da melhor forma.

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