Avançar para o conteúdo principal
Às vezes sinto-me  a ovelha negra, a mancha no caderno, a maquiagem borratada, a carta fora do baralho, sinto-me diferente, sinto-me longe. E, às vezes (só mesmo às vezes), tem alguma piada como se me retirasse um peso dos ombros, como se não houvesse expectativas a cumprir e logo não houvesse nada a falhar... mas a maioria das vezes, quando me sinto assim, não tem piada nenhum, porque me sinto lixo, sinto-me falhada, sinto-me nada.
Eu sei que a minha maneira de ser não é comum para muita gente, não me acho especial, mas sei que muita gente não me compreende. Sei que às vezes incomodo, faço impressão, salto fora da caixa, e sou, dirão alguns, desadequada, desajustada, destrambelhada, desnaturada, desligada... alguns dirão coisas piores, acreditem. Alguns dirão que não valho nada e que não quero saber de ninguém - o que não poderia ser menos verdade. Não é nada esta a imagem que tenho de mim, mas acreditem que há dias em que a opinião dos outros é tão forte e eu sinto-me tão fraca que acabo por me ver tal como eles me vêem. Nesses dias, o dia dói. Não é culpa deles, eu é que deixo que as opiniões de outros me influenciem e me deitem abaixo, por isso se a culpa for de alguém, é minha.
Eu acredito que, às vezes me saboto a mim própria, acabando por adotar comportamentos que, apesar de não terem nenhuma intenção negativa, me deixam numa posição comprometedora, duvidosa. Também acredito que, às vezes, retiro algum prazer de saber que quando faço o que quero tenho pessoas contra mim -  mas esse prazer dura muito pouco tempo, é uma certa adrenalina, por já saber à partida que vou ser julgada por fazer simplesmente o que me apetece, no fundo, por ser quem sou. Dura muito pouco tempo e não é a razão de eu agir como ajo. Não valeria a pena se eu agisse assim só por esse prazer. Eu ajo de forma a ser fiel a mim, ao que penso e ao que sinto, tentando respeitar quem me rodeia, sem me desrespeitar a mim própria.
Há lugares e há pessoas junto das quais me sinto mais pequena e mais diferente. Há pessoas bastante próximas de mim que me fazem sentir isso. Há julgamentos que não consigo entender e esses, se calhar, são os que doíem mais. 
Eu sei que vocês não sabem lidar comigo, sei que talvez nunca saberão compreender o que sou e quem sou, nunca conseguirão perceber o tipo de vida que quero para mim e a minha visão da vida e do mundo. Tenho ainda, uma pequena esperança, de vos conseguir mostrar que aquilo que sou não tem metade da maldade toda que pensam de mim. Tenho esperança de ainda conseguir chegar a vocês. Tenho esperança que, se baixar ainda mais as minhas defesas e vos falar com calma, vocês me consigam ver de verdade. Tenho esperança que deixem de olhar para mim como um farrapo, como uma falhada, como um erro.
Tenho esperança, mas também tenho amor próprio e, se não resultar, não tenho muitas opções... Posso deixar-me convencer pelas vossas ideias e acreditar que sou ovelha negra e valho zero, ou deixar-me convencer por mim e por quem me rodeia e aceita e saber que apesar dos erros e defeitos, tenho muita coisa boa em mim, tenho valor e muito para dar a este mundo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

As desculpas pedem-se, os erros é que se evitam

As desculpas não se pedem, evitam-se. Passei a minha vida inteira a ouvir isto, para chegar aos 25 anos e perceber que é a maior estupidez de sempre.  Essa é a uma frase que as pessoas usam quando colocam expectativas demasiado elevadas para as outras. As desculpas pedem-se sim, as desculpas são para se pedir, é das primeiras coisas que ensinamos às crianças: pedir desculpa quando erram ou fazem uma asneira. Porque é que a partir de determinada altura já não queremos que as pessoas nos peçam desculpa? As desculpas pedem-se, o que se evita são os erros e ainda assim sabemos que ao longo da nossa vida iremos errar várias vezes.  Novamente, quem diz o contrário são as pessoas que criam expectativas excessivamente altas para os outros, impossíveis de cumprir. E ainda que digamos que devemos evitar os erros, não por aí umas quantas linhas filosóficas ou o que lhe quiserem chamar que defendem que é a partir dos erros que aprendemos? Que é com os que crescemos? Que os erros são parte essencial d…

Quantos queres?

Diz-me lá, quantos queres?
Nesta brincadeira de crianças
que está prestes a tornar-se séria, diz-me lá
Quantos queres?
Dias de sol, quantos queres?
Abraços de quem amas, quantos queres?
Uma festa no cabelo, quantos queres?
Noites de amor intenso e sem fim, quantos queres?
Diz-me lá, sinto que queres algo mais.
Dias de liberdade, quantos queres?
Momentos em que podes ser tu próprio, quantos queres?
Passeios na rua julgamentos dos outros, quantos queres?
Diz-me lá o quanto queres ser livre e seres tu, sem que ninguém te critique ou coloque em causa quem és. Diz-me o quanto queres gritar ao mundo de quem gostas, sem que ninguém te olhe de lado. Diz-me o quantos olhares de lado já sentiste, quantas pessoas a desaprovar um abraço, umas mãos dadas, um beijo que tenhas dado. Diz-me quantas vezes já te sentiste preso/a dentro do teu próprio corpo, quantas vezes escondeste o que realmente pensavas e  sentias para te enquadrares na sociedade, no teu grupo, na tua família, para fazeres parte do quadrado que…

Sobre a arte de estar sempre a aprender

O senhor V. e a dona P. têm sido uma verdadeira descoberta para mim. Nunca imaginei que fosse gostar tanto do que faço atualmente, que me fosse sentir tão bem, que fosse simpatizar tanto com os meus patrões, e lhes ter carinho, aquele carinho que criamos quase automaticamente por pessoas que nos fazem lembrar e que poderiam ser nossos pais. O senhor V. disse-me num dos primeiros dias que trabalhei na ourivesaria: "O saber não ocupa lugar" e é tão verdade. Tenho aprendido tanto com ele. Por vezes, chama-me de "Dra.", sabendo que eu não gosto nada disso, e diz com toda a certeza que eu sei fazer tudo o que ele faz, diga-se: mudar pilhas aos relógios, mudar braceletes, e arranjar umas quantas outras coisas. Porque fui para a universidade e portanto saberei tudo isso, porque sou "Dra.". Mas não sei e não sou Dra. Na faculdade não aprendi metade das coisas que tenho aprendido nas restantes áreas da minha vida, nem a faculdade de me ensinou, nem poderia ensinar …