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a terceira vez

É a terceira vez que passo por isso. A terceira vez que começo a tomar medicamentos para tratar nem sei bem o quê: ansiedade, depressão, mal-estar geral com a vida, que teima em aparecer de quando em vez. E eu que nem sou de tomar medicação. Um conselho: quando iniciarem um tratamento farmacêutico para doença mental, mantenham-no até ao fim e/ou façam a descontinuação gradual como acompanhamento médico. (Claro que depois sabemos lá se o médico nos acompanha em condições e tem o mínimo de noção do que está a fazer). A sério. A determinado ponto, vão achar que já estão bem, que a nuvem cinzenta que pairava na vossa mente passou e foi embora de vez, vão achar que podem tudo e que a vida é bela. E a vida é bela sim, mas o mais provável é que ao pararem a medicação de forma drástica a nuvem volte. E por nuvem refiro-me à imensa falta de vontade de sequer por um pé fora da cama, de acordar e lavar os dentes, de cuidarmos de nós, de comermos, quando mais de irmos trabalhar ou sermos gente. Que se f*da tudo isso nesses momentos. O mais provável é que tudo volte e venha acompanhado de uma nova amiga, a ideia de fracasso, que é como quem diz “eu tentei, pedi ajuda e nem assim consegui, sou mesmo uma m*rda”. Não és uma m*rda, acredita. Mas esse processo é uma merda, sim. E acreditem que à 3ª vez a m*rda é maior. Mas pelos vistos há pessoas que como eu têm gosto por isso ou então já estão tão perdidas que não sabem o que fazer. De qualquer forma, olhem para o que eu digo e não para o que eu faço, pois parece que já não faço nada de jeito.

Já agora, para problemas de doença mental, por favor não se fiquem pelo médico de família e peçam um psicólogo ou psiquiatra, ou pelo menos peçam para serem também acompanhadas por esses profissionais. Aviso já que podem dar de caras com um médico de clínica geral que vos diz “Com a sua idade? Acho que não é necessário com a sua idade ter acompanhamento psicológico”. Podem imaginar a minha cara, tendo eu uma licenciatura e mestrado em psicologia e já tendo sido acompanhada por psicologia e psiquiatria. Mas não deixem de pedir aquilo que a que têm direito – NÃO HÁ IDADE PARA IR AO PSICÓLOGO OU AO PSIQUIATRA. E já agora o psicólogo também é útil sem ser em momentos de crise, para desenvolvimento pessoal. Mas já me estou a perder. Independentemente do que vos disserem não façam tratamento farmacêutico sem conjugar com acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico. Pode não ser fácil mexer em todos esses pensamentos que estão guardados, mas será benéfico a longo prazo para o vosso bem estar

É a terceira vez que estou nisto e já devia saber melhor. Acho que só consigo perceber que preciso de ajuda quando estou no limite: quando já não me levanto para ir trabalhar, nem sequer para fazer coisas que gosto, quando toda e qualquer interação social me tira cerca de 10% de energia por cada 2 minutos, quando acordo todos os dias e parece que acabei de ser atropelada por um camião, quando passo o dia de sábado a preparar-me para não stressar no domingo por depois já ser segunda-feira; quando o passo dia aborrecida em casa sem nada para fazer e sem nada que me apeteça fazer; quando perco viagens combinadas com amigas e bilhetes pagos, simplesmente porque não tenho vontade.
Porque antes do limite chegar tenho tanta vergonha e acho que sou fraca por me queixar do meu estado. Não tenho razões, sou só parva por me sentir assim. Queixar-me de quê? E se neste estado algumas pessoas têm dificuldade em entender-me, no estado limite o mesmo acontece, a diferença é mesmo essa, é um estado limite, e toda a gente vê que passaste o dia a chorar, que não conseguem dizer uma frase sem as lágrimas começarem a cair, que não te apetece nada da vida… e é preciso agir.

Estou de baixa de 12 dias. Hoje é o quarto dia e devo dizer que não me sinto nem mais nem menos animada. Estou. Talvez não chore tanto, mas estou adormecida, neutra, sem vida. Só estou. Não sei muito bem o que fazer com os dias e não gosto do que eles estão a fazer comigo. Ainda não encaro muito bem o futuro regresso ao trabalho. O telefone toca, são chamadas do trabalho e eu tremo, bloqueio, fico a olhar para o telemóvel até desligar. Depois fico nervosa porque não atendi e ansiosa ao aperceber-me que vou ter de devolver a chamada.
Não quero. Por favor, não me liguem porque eu não quero atender. Deixem-me em paz. De certeza que quando voltar ainda vou a tempo de tratar de tudo o que for necessário. Afinal não sou assim tão essencial. O que faço todos sabem fazer. O que não fizerem, fica para quando eu voltar.
Estou em baixo. Estou de baixa. Não me liguem que eu não quero atender.
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