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Deixei o chão e abracei o ar

Deixei o chão e abracei o ar. Despi-me do peso das roupas, dos pensamentos e dos sofrimentos. Cai no meio do turbilhão e da ilusão. Pensei que seria um abismo tudo isto, mas afinal é só uma mudança. Sou um ser mais leve, à medida que me deixo ir. É outra espécie de luz. Não morro, mas renasço, ainda nesta vida, com tempo de voar para outro lado. Libertei as ideias, elas agora andam por aí soltas, ao vento. Nunca couberam todas na minha cabeça, era urgente permitir que se fossem. Pertencem-me, mas não preciso que fiquem em mim. Tal como amor. Pertence-me, mas não fica em mim. Porque não pode, porque não deixo. Porque não nasceu para ficar preso, nasceu para ser dado, oferecido, para ser um malandro que vai com todos e com todas. O amor é um rodado, diriam alguns, mas eu gosto dele assim. Sem preconceitos, sem limites. Dá-se com todos, oferece-se a todos, não tem inibições. E eu um dia gostava de ser como ele. Um dia eu também quero ser amor, tornar-me na forma mais personificada que e...

Foi.

Se eu morresse amanhã gostava que soubesses que foi amor. Não sei mais que te dizer, acho que queria que soubesses isso. Foi amor, sem o "viveram felizes para sempre", sem coraçõezinhos a pairar por todo lado. Foi amor com partilha, aceitação, compreensão, atração e liberdade. Foi amor com muita felicidade. Foi um amor que logo desde início soube que tinha de acontecer. Foi um amor caído do céu, que apareceu ao acaso, sem ninguém esperar. E se calhar ninguém sabia o que era. Foi regado com sorrisos e olhares, com mil e uma conversas, com beijos e corpos nus, com abraços apertados. Foi crescendo aos pouquinhos, e aos pouquinhos nos fomos entregando mais e crescendo também nós mais a cada dia. E só hoje me apercebi, na verdade, do que criámos e do amor que temos. E sorri. E só queria que soubesses isso.

(in)adequação

É um alívio enorme quando te apercebes e aceitas a tua inadequação. Hoje percebi que todo o mal que tenho sentido em mim, veio da minha tentativa de encaixar, de achar que eu tinha que caber naquela forma, de achar que o sentir-me mal ou desadequada era da minha cabeça, que só tinha que tentar um pouco mais, forçar um pouco mais, trabalhar um pouco mais. E hoje, ao falar simplesmente, a resposta saiu-me dos lábios como se fosse a frase mais comum e natural que eu poderia dizer: "Hoje eu sei que ando sempre em altos e baixos, porque a realidade em que vivo e que vou criando à minha volta não me diz nada, não faz sentido, não me satisfaz". E é ao aperceber-me disso que ganho força e encontro maneiras de tornar a minha realizada mais adequada a quem eu sou e não aos outros. Só percebendo isso é que posso começar a moldar o meu pequeno mundo, a encontrar aquilo que realmente quero ser e fazer com a vida que me foi dada, ao invés de andar a passar pelo mundo como se ele não foss...

humores e apatias

Todos querem que eu explique, que dê uma justificação, uma resposta que faça algum sentido para explicar esta apatia, esta tristeza. Para explicar este nada. Mas até a falar eu sinto um vazio. Não tenho resposta. Gostava de me entender, que me entendessem. Gostava que inventassem um tradutor para os sentimentos que não entendemos. Gostava que, de alguma forma, entrassem no meu cérebro e pudessem reproduzir em sons e imagens os meus pensamentos. Tenho a certeza que seria assustador para algumas pessoas, mas facilitaria tudo.  A minha apatia e tristeza não fazem sentido e isso ainda piora tudo. Elas surgem do nada e eu, fraca, apanhada desprevenida, deixo que me controlem. Como explico a alguém que me viu cheia de sorrisos ontem à noite no meio dos amigos que na verdade onde me sinto bem ultimamente é deitada, encolhida sobre mim, na minha cama, tapada pelo edredon? Como é que explico às pessoas que hoje sou a rainha do mundo, capaz de tudo, vibro de ideias e energia e amanhã dou...

Cartas para ti XI

Desculpa. A culpa é minha devia ter-te avisado antes. Mostrei-te quem sou, mas talvez tenha deixado aparecer mais o que é mais feliz e tranquilo. Esqueci-me de te falar das sombras. Não porque te quisesse esconder algo, simplesmente não quis pesar-te e quis aproveitar cada momento nosso com sorrisos e não com monstros da minha cabeça. Mas sim, existem sombras e momentos maus. Desculpa. Volta e meia é possível que não me reconheças. Volta e meia não vou querer sair da cama, nem que me prometas a paz do mundo. Vão haver dias como o de hoje. Talvez pior. Dias em que a voz me foge e só quero encolher-me, tornar-me o mais pequenina possível e se possível desaparecer para ninguém me encontrar, nem mesmo tu. Dias em que vou querer não sair do meu casulo nem deixar ninguém entrar. Dias em que vou querer gritar, chorar e revoltar-me contra algo que não existe. Dias em que vou sentir-me miserável, sem razão aparente. Dias em que a motivação e o brilho nos meus olhos vão morrer, vai ficar ape...

Cartas para ti X

Já não me lembrava de chorar de amor. Mas no outro dia, olhei para ti e emocionei-me, senti o peito cheio de algo, de uma energia boa que não sei definir melhor do que isto, caiu-me uma lágrima e sorri. Foi um lágrima tão feliz, acredita. Deixei-a cair, deixei-me senti-la e sentir a sensação doce de te querer, de admirar e de gostar de ti. Foi nesse momento que percebi que um pequenino lugar dentro de mim seria teu, sempre, independentemente do amanhã. Aquele pedacinho de mim é teu. Sim, esse. Aquele bocadinho de pele no ombro, aquele sinal na bochecha, aquele canto do lábio, aquele brilho nos olhos, aquele fio de cabelo que afastaste dos meus olhos e que teima em voltar sempre para a frente da minha cara. Afinal, são vários pedacinhos. E são teus.

fotografar-te.

Os dois deitados e tu olhas-me com cara de quem está a magicar um plano. Olhas para mim, olhas para a janela e para as luz que entra pela persiana, depois ficas a pensar. - Posso tirar-te um fotografia? Olho-te a tentar perceber o que estás a pensar. - Podes, acho eu. Porquê? - Queria tirar-te uma fotografia assim, contigo assim. És tão bonita, a sério. Apetece-me tirar-te uma fotografia. Rio-me um pouco envergonhada e lisonjeada, ao mesmo tempo, e escondo-me um bocado debaixo do lençol. É impossível dizer-te que não. - A sério. Gostava de guardar este momento assim: tu deitada na minha cama, nua e meia coberta com o lençol, sem quereres saber do que se passa lá fora, do tempo, das pessoas, do mundo. Só existimos nós os dois, aqui e agora. Eu não quero a fotografia para mostrar a ninguém. Quero-a só para mim, só para eu guardar este momento em mim, mesmo se um dia me esquecer.   Silêncio. - Tira. - O quê? - Tira, podes tirar a fotografia. - A sério? - Sim....