"...portanto nada mais natural que terem-se logo abraçado José Anaiço e Joana Carda como se há um ano estivessem separados e padecessem de saudades desde o primeiro dia. Beijaram-se em ânsia, sôfregos, não foi um relâmpago mas uma sucessão deles, as palavras foram menos, é difícil falar num beijo, mas enfim passados minutos, puderam ouvir-se, Gosto de ti, creio que te amo, disse José Anaiço honestamente, Também eu gosto de ti, e também creio que te amo, por isso te beijei ontem, não, não é bem assim, não te teria beijado se não sentisse que te amava, mas posso amar-te muito mais, Nada sabes de mim, Se uma pessoa para gostar da outra, estivesse à espera de conhecê-la, não lhe chegaria a vida toda, Duvidas que duas pessoas possam conhecer-se, E tu, acreditas, É a ti que pergunto, Primeiro diz-me o que é conhecer, Não tenho aqui um dicionário, Neste caso, ir ao dicionário é ficar a saber o que já se sabia antes, Os dicionários só dizem o que pode servir a todos, Repito a pergunta, que é conhecer, Não sei, E contudo podes amar, Posso amar-te, Sem me conheceres, Assim parece, (...) Não, eu não sou o nome que tenho, Quem és, então, Eu, Tu, Anaiço estendeu a mão, tocou-lhe no rosto, murmurou, Tu, ela fez o mesmo, em voz baixa repetiu, Tu, e os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas (...). José Anaiço disse, Quando contei ao Joaquim o nosso primeiro encontro, quis dizer-lhe a cor dos teus olhos, mas não fui capaz, disse cor de céu novo, disse uns olhos não sei bem, e ele pegou na palavra,passou a chamar-te assim mesmo, Como, Dona Olhos Não Sei Bem, claro que na tua presença não se atreve, Gosto do nome, Gosto de ti (...)."
Sei que a maioria das pessoas diz que a paixão é temporária, o que importa mesmo é que exista o amor verdadeiro e companheiro. Mas, desculpem-me, eu cada vez concordo menos com isto. Cada vez acredito mais que a paixão é realmente importante e completa o sentimento de amor. A paixão é todo o desejo, impulso, fogo que sentimos pelo outro; o amor é mais calmo, mais estável até, por isso é que muitas vezes amamos, só que a paixão não está lá, o que faz com que algo não esteja bem, sentimos que falta algo, sem saber bem o quê. É preciso que se cultive a paixão, que se vá alimentando a fogueira, porque esta paixão foi muitas vezes aquilo que nos fez dar o primeiro passo, atirar de cabeça. Esta paixão foi aquele desejo súbito de estar com o outro, de nos entregarmos, mesmo que sem segurança nenhuma, sem nada que nos dissesse "é para valer" ou "vai dar tudo certo". Esta paixão é a vontade pura e primeira do outro, da sua pessoa e do seu corpo. Acredito que é, frequentem...
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