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Sobre a arte de estar sempre a aprender

O senhor V. e a dona P. têm sido uma verdadeira descoberta para mim. Nunca imaginei que fosse gostar tanto do que faço atualmente, que me fosse sentir tão bem, que fosse simpatizar tanto com os meus patrões, e lhes ter carinho, aquele carinho que criamos quase automaticamente por pessoas que nos fazem lembrar e que poderiam ser nossos pais.
O senhor V. disse-me num dos primeiros dias que trabalhei na ourivesaria: "O saber não ocupa lugar" e é tão verdade. Tenho aprendido tanto com ele. Por vezes, chama-me de "Dra.", sabendo que eu não gosto nada disso, e diz com toda a certeza que eu sei fazer tudo o que ele faz, diga-se: mudar pilhas aos relógios, mudar braceletes, e arranjar umas quantas outras coisas. Porque fui para a universidade e portanto saberei tudo isso, porque sou "Dra.". Mas não sei e não sou Dra. Na faculdade não aprendi metade das coisas que tenho aprendido nas restantes áreas da minha vida, nem a faculdade de me ensinou, nem poderia ensinar as coisas que o senhor V. aprendeu em 40 anos de vida. Há dias que se confunde e pensa que sou engenheira química, quando vou limpar os colares e pendentes num liquído xpto ou arquiteta quando me apanha a fazer desenhinos no papel. Outros dias chama-me "D. Inês de Castro" e começa a divagar sobre história.
Conta-me que tinha cerca de 16 anos quando começou a aprender a ser ourives e hoje em dia, enquanto eu luto com um relógio, durante 10 minutos, para o abrir e trocar a pilha, o senhor V. ri-se do meu mau jeito e da minha persistência, e oferece-se para o fazer para não fazer o cliente esperar mais. E em menos de um minuto, já entregou o relógio novamente a funcionar ao cliente. E eu vou olhando e quanto o vejo a trabalhar, aprendendo os truques devagarinho e ficando toda feliz quando consigo mudar uma bracelete ou uma pilha sozinha. Ou quando consigo responder quando os clientes me perguntam se tenho "fiozinhos de ouro para crianças", ou se tenho "alguma prenda para aniversário de casados de 50 anos", entre outras coisas, que no início me eram completamente alheias.
Senti desde o início uma empatia grande com o senhor V. e a dona P. Senti que eram pessoas de bom coração, e são. Custa-me ver os seus problemas e gosto de os poder ajudar com o pouco que faço. O senhor V., gosta de falar, estica-se um pouco nos copos de vinho por vezes, e precisa de alguém que lhe puxe as orelhas de vez em quando e que o chame à razão, mesmo que reclame. Fala-me do seu gato todos os dias, diz-me o que está a pensar fazer para jantar e no dia seguinte confirma-me se o fez ou não. Fala-me da sua vida quando era mais novo, de como aprendeu a ser ourives, por onde andou, os mercados que fez e como acabou nesta pequena cidade.
Eu tirei um curso de psicologia e estou a trabalhar numa ourivesaria, até ver, temporariamente. E talvez seja um dos locais onde me sinto mais à vontade e bem. Algumas pessoas acham estranho. Eu acho engraçado e interessante. Gosto de observar pessoas, de ver como interagem umas com as outras e gosto de aprender. Neste local junto um pouco de tudo e ainda posso ajudar um bocadinho algumas pessoas só por ouvi-las com atenção, respeito e aceitação. Eu não sou mais por ter um curso, nem sou menos. Muitos locais não me aceitariam por verem que eu tinha um mestrado. Mas o senhor V. e a dona P. aceitaram e tratam-me como uma filha quase.
A vida é assim, aproveitar todas as oportunidades para aprender, sobre tudo. Passaram apenas algumas semanas desde que conheci este casal e que comecei a trabalhar com eles e muito tenho crescido e aprendido. Não tenho dúvidas de que, não sendo um trabalho a área de psicologia, me faz crescer enquanto profissional. São imensas as situações do dia em que tenho a oportunidade de me colocar no lugar do outro, de ajudar a perceber o que querem, de escutar e ser empático, de fazer companhia, de conversar apenas, de arrancar um sorriso.
São pequenas aprendizagens da vida:
- Todos os momentos são lugares de aprendizagem;
- Todas as pessoas nos ensinam algo;
- Há oportunidades escondidas em sítios inesperados;
Continuo a querer ser psicóloga, mas até conseguir essa oportunidade, posso, devo e quero continuar a crescer e a aprender, na pequena loja do senhor V., a ouvi-lo resmungar vezes sem conta e outras vezes a rirmos os dois, a consertar relógios na sua pequena mesinha, desarrumada, a falar com as pessoas desta pequena cidade,a conhecer cada uma delas, a fazer parte desta casa.




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