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Um dia vou ser Mar.

Acho que vou mergulhar, mergulhar bem fundo e, se puder, se conseguir ficar lá para sempre até comçar a ter barbatanas e uma cauda como as sereias e conseguir respirar de baixo de àgua. Tudo para não ter de voltar à superficie, para não voltar a terra, para não enfrentar o mundo. Vou ficar lá em baixo, no fundo do oceano, a deixar-me ir com a corrente, flutuando por todo o mundo até me cansar de novo do mar ou até olhar a terra com saudade. Saudade já eu tenho, mas tenho saudade do que era o meu porto seguro e já não o é. Pelo menos, não o é da mesma maneira, e eu assim já não me sinto segura, portanto perde o efeito.
Sim, vou deixar que a àgua me engula, me transforme, me abane, me afogue, me faça desmaiar, morrer quem sabe. Para que depois me acorde, me reanime e me faça talvez vir à tona ver a luz do sol e perceber que tudo não passou de um ilusão, que foi apenas um mergulho na praia numa tarde quente de verão e que toda esta sensação de ser nada não foi mais que um fechar de olhos enquanto recebi a àgua fresca da ondas no meu corpo.

 Eu um dia vou ser Mar.

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