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Indescritível

No outro dia vivi algo que nunca pensei em toda a minha vida. Parecia tirado de um filme, infelizmente de um filme com final triste. Acho que contado ninguém acredita, eu própria ainda estou a tentar assimilar a situação, porque tenho sempre dificuldade em integrar estas coisas (marcantes) na minha mente.
Era um jantar normal com todos a rirem. De repente ouviu-se um barulho lá fora, alguém foi ver e voltou aos berros a dizer que havia fogo. Corremos todos para a porta e, quando achávamos que estaria a casa do vizinho a arder, deparamo-nos com algo horrível: não era o prédio, mas sim o próprio vizinho! Sim, o senhor estava em chamas a pedir ajuda... Até tenho dificuldade em escrever, ainda não deixei de ver a imagem dele à minha frente. Com mantas tentamos apagar, depois com àgua, que foi o que valeu e colocaram toalhas molhadas em todo o seu corpo. O senhor esteve sempre calmo, a dizer que a culpa foi sua, porque, pelos vistos queria fazer uma tosta mista (logo no dia em que a empregada não ficou com ele à noite) e deixou o pano em cima do disco do fogão. Ele estava tão calmo, em choque, só pode. Tinha mesmo pedaços de pele a sair. Quando o vimos já a sua roupa estava toda queimada praticamente. Continuo a vê-lo arder à minha frente. Entretanto chegam bombeiros e policia, quem demora mais é o Inem,mas lá vieram e levaram o senhor, coitado. 
Enquanto isto, podem imaginar como uma cena destas pode afectar uma senhora com 91 anos. Entre toda esta agitação, havia também esta preocupação. Por favor acalme-se um pouco, não olhe, sente-se... Enfim, como dizer isto a alguém que está a ver um homem a arder e não pode fazer nada?
Os vizinhos que tinham ficado (alguns) no andar de cima à espera que tudo acabasse, desceram depois. Não os condeno, mas podiam ter feito a diferença.
O senhor ficou no hospital com 60% do corpo com queimaduras de 2º e 3º grau. No dia seguinte, colocaram-no em soro induzido para não sofrer, ninguém podia entrar no quarto e só se viam os olhos inchados e a boca. A barriga também estava toda inchada. Se passasse dessa noite seria milagre. Quis tanto que se salvasse, acreditei que sim. Na noite seguinte, pelas 23h faleceu. E eu continuo a vê-lo à minha frente. Uma pessoa que estava viva e bem e de repente já não está cá. Ele vivia ali, na porta da frente e agora já não vive, morreu. Passei lá dois dias a seguir e ainda estava o cheiro horrível, que me dá vómitos e continuei a vê-lo ali apoiado no armário com todos à volta a tentarem salvá-lo. 
Ainda não acredito mesmo que isto aconteceu. Mas, a verdade é que o senhor morreu, infelizmente e só quero tentar acreditar que ele não sofreu aquilo que eu imagino que terá sofrido.
Nunca imaginei algo assim.

Comentários

Mafalda disse…
Inês soube agora através do teu texto o q aconteceu. A minha irmã que vive aí num prédio disse-me que havia uma casa que tinha ardido, mas que não sabia de mais nada. Por ti soube da história...da terrível história...

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