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Eu luto, eu tento, mas é difícil

Todos os dias tento partir para a luta. Às vezes consigo aguentar-me durante algum tempo, mas acabo por cair de novo. Parece um vicio, uma praga, um vírus que me apanhou e nunca me vai largar. E tenho medo mesmo que nunca me venha a largar.
Vivo como se fosse duas pessoas - a psicóloga e a paciente - ouço-me e respondo, mas o lado da paciente ganha sempre e a psicóloga nunca consegue fazer vencer os seus argumentos. Eu sei que ela tem razão, mas não sei bem porquê não consigo fazer o que ela diz. Quando a psicóloga fala, parece fácil e a paciente pensa logo "eu consigo fazer isto, eu consigo alcançar o equilíbrio, eu consigo ser essa pessoa", mas quando chega a noite e a paciente fica sozinha - quando o namorado vai para casa e toda a gente já dorme -, aí não há psicóloga para ninguém, só a paciente e o seu problema. E ela é capaz de devorar tudo se a compulsão vier, tudo o que há em casa, sem pensar, quase sem saborear, até ficar mal-disposta. Depois, a paciente culpa-se, irrita-se, deprime, tem vontade de dormir para sempre e não acordar; a manhã seguinte é um sofrimento imenso, uma falta de vontade para qualquer coisa, uma apatia e uma tristeza brutal. Ela quase não se consegue levantar, tudo lhe pesa. A única coisa que consegue fazer é beber o seu chá laxante - litros - e esperar tirar toda aquela porcaria do seu corpo e sentir-se um pouco mais leve, mas ainda assim é difícil a culpa ir embora.
Noutros dias, a paciente lembra-se de como já foi tão magrinha e de como toda a gente comentava isso e a chateava. Nunca esquecerá isso. Mas era assim que ela se sentia bem, magrinha, apesar da psicóloga dizer que era magrinha de mais, pouco saudável. A paciente sabe, mas o que pode fazer? Ela quer voltar a ser assim, porque é assim que se sente bem. Então, nesses dias, ela junta a sua força toda e come o mínimo possível, vai tentando enganar tudo e todos para ninguém desconfiar de nada... Parece fácil, às vezes ela consegue estar assim algum tempo, mesmo com a psicóloga a dizer que devia comer mais qualquer coisa, que isso assim não é saudável, mas ela não consegue - se comer vai sentir-se culpada, mesmo que seja pouco. Aí, a psicóloga insiste um pouco mais e a paciente aceitar comer mais qualquer coisinha levezinha pouquinho, ok... Mas, assim, que come esse pedacinho, pouquinho, levezinho, volta a compulsão e volta a comer tudo, todo o pão, todo o chocolate e toda a bolacha que existe na dispensa. TUDO. E o ciclo recomeça. É um ciclo sem fim. E a paciente fica de rastos sempre.
E, às vezes, ela ainda tem de levar com comentários dizendo que "agora estás bem, mais cheiinha" , "estás mais bonita assim, estavas feia, toda magra, até metia dó", "estás um avião, mais compostinha". É que ninguém sabe o que vai na cabeça desta rapariga, podem estar a elogiá-la com todas estas palavras, mas ela só consegue ouvir uma coisa "Estás mais gorda!" e isso mete-lhe nojo, deixa-a triste, frustrada e irritada. Sorri um sorriso falso. Fala com todos, mostra que está tudo bem "Sim, agora estou bem..." e engole todas as lágrimas que queria deitar cá para fora, esconde os gritos de raiva contra si e esconde os arranhões na barriga que não quer ter. Esconde tudo e ninguém sabe - mesmo os que sabem que algo está errado, não compreendem. 
Ela tem medo. Medo de pedir ajuda, medo de ser tratada, medo da comida, medo de engordar, medo estar realmente doente, medo que os médicos não a entendam, medo do que posso vir a acontecer, medo da embrulhada em que se está a meter... Nem ela sabe bem o que se passa, só sabe que tem medo. E nem a sua psicóloga, ou seja, nem a parte mais racional da sua mente, consegue ajudá-la. Porque quando tudo parece estar controlado, quando ela consegue restringir a sua alimentação, comer pouco, aguentar firme a luta... 
De repente surge uma compulsão que a atira para a tristeza e depressão, que a faz deitar-se e não querer fazer mais nada se não estar ali deitada, sozinha, agarrada ao seu corpo, tentando escondê-lo, tentando fazer magia e tirar-lhe toda a gordura. Ela sente-se tão perdida, tão assustada, tão só. Tão sem sentido.

Comentários

xika disse…
sabes que estou sempre aqui...
adoro-te

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