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humores e apatias

Todos querem que eu explique, que dê uma justificação, uma resposta que faça açgum sentido para explicar esta apatia, esta tristeza. Para explicar este nada. Mas até a falar eu sinto um vazio. Não tenho resposta. Gostava de me entender, que me entendessem. Gostava que inventassem um tradutor para os sentimentos que não entendemos. Gostava que, de alguma forma, entrassem no meu cérebro e pudessem reproduzir em sons e imagens os meus pensamentos. Tenho a certeza que seria assustador para algumas pessoas, mas facilitaria tudo. 
A minha apatia e tristeza não fazem sentido e isso ainda piora tudo. Elas surgem do nada e eu, fraca, apanhada desprevenida, deixo que me controlem. Como explico a alguém que me viu cheia de sorrisos ontem à noite no meio dos amigos que na verdade onde me sinto bem ultimamente é deitada, encolhida sobre mim, na minha cama, tapada pelo edredon? Como é que explico às pessoas que hoje sou a rainha do mundo, capaz de tudo, vibro de ideias e energia e amanhã dou por mim a pensar que se me atirar para o meio da rua quando aquele carro passar não tem mal nenhum? Como é que explico a alguém que saio de uma reunião simples com o braço todo marcado de beliscões porque foi a forma mais saudável que eu encontrei de conseguir estar presente e fazer o meu trabalho sem desatar a chorar?
Como é que se diz às pessoas estas coisas? Não sei. Gostava de dizer todas as parvoíces que vão cá dentro sem que isso preocupasse em demasia as pessoas. Por outro lado, será que não faz sentido preocuparem-se? Se calhar também me devia preocupar mais. Se calhar devia partilhar mais. Mas não há assim tanto para partilhar. O pouco que consigo dizer é que apesar de hoje de manhã me ter sentido a mulher mais feliz do mundo só porque sim, pouco depois já me sentia sem vida, sem gosto, sem nada. Pouco depois já sentia aquele vazio desconfortável no peito. Depois de amanhã, talvez volte a sentir-me como nova e até faça mil planos e me torne mais proativa. Quase que aposto que tal não irá durar mais de dois dias. Dois dias até cair de novo, redonda no chão. Quando cair vou encolher-me de novo o mais possível e cobrir-me com um lençol, fingindo que não existo. Vou pensar em tudo o que poderia fazer para deixar de sentir o que sinto. Vou pensar em alcoól e em erva. Vou pensar em magoar-me, beliscar-me, morder-me, cortar-me. Vou pensar que poderia tomar uma carraga de comprimidos e descansar um pouco a cabeça. Vou pensar em esperar no meio da rua que passe um carro. Vou pensar tudo isso. Eu não quero morrer, mas vou pensar, em algum momento, que não era assim tão mal pensado. Mas não quero. Na verdade, só quero deixar de sentir isto: tristeza, apatia, vazio.
Nunca me entendi por completo, porque aquilo que sou agora, não serei daqui a 5 minutos, se necessário. Sempre me achei uma pessoas forte, mas confesso que nos momentos em que caio, me sinto a pessoa mais fraca. Porque tudo é difícil para mim. Parece que não faço nada, que não me esforço, mas o que é preciso perceber é que  levantar-me é difícil. Vestir-me e sair de casa é difícil. Cumprimentar e falar com pessoas, principalmente várias pessoas é muito dificil. Ver o sol pode ser dificil. Sair da minha concha é difícil. É muito difícil. É demasiado. Vou conseguindo, mas é demasiado difícil. Tudo pesa imenso e por isso o pouco que consigo fazer, quase que parece nada. E para parecer quase nada, quase que é preferivel não fazer nada e deixar-me ficar e ser afogada por esta apatia que teima em não ir embora.

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